Brasil Ride 2019

Brasil Ride não parece nem é fácil: pode ser mais difícil ainda e muito mais bonito do que os olhos podem ver!

Etapa Rainha

Pois é! Eu nem por breves momentos tinha pensado em dizer que o Brasil Ride “parece fácil” – eu já sabia que não o era!

No nosso dia a dia pautado por frases feitas, por expressões que nos chegaram da herança oral, etiquetamos e sentenciamos tanto e tantos do que e dos quais com que realizamos a nossa experiência.

“Parece fácil mas não é” é, por certo, uma dessas orações que já usou e que nem sequer marcou um evento tão desafiante quanto isso – agora que, aqui, neste presente, pensa em tudo aquilo que já superou e nos reptos que o futuro, mais ou menos próximo, lhe coloca. Verdade ou não?

Pois é! Eu nem por breves momentos tinha pensado em dizer que o Brasil Ride “parece fácil” – eu já sabia que não o era! Não por ter feito a prova anteriormente, mas porque respeito sempre a Natureza (clima, relevo, habitantes), o desenho e organização da prova e os demais participantes (entre outros elementos).
Brasil Ride. “O nome é bonito”. Estou totalmente de acordo: Brasil e Ride combinam muito bem e são um ótimo postal de convite para incentivar qualquer um a visitar o país mas mais ainda a cativar os atletas de BTT, ultramaratonistas, em específico, a praticarem a modalidade a que se dedicam num cenário tão belo.

E foi assim que, no passado mês de Outubro, o sul da Bahia foi o último destino do meu calendário competitivo com vista aos pontos que contam para o ranking de mtb olímpico da UCI. Foram sete dias/etapas entre a região litoral, mais conhecida como Costa do Descobrimento (local onde os primeiros portugueses aportaram no Brasil, em 1500), de onde iniciámos a prova em direção ao interior, percorrendo as montanhas que dividem os estados da Bahia e Minas Gerais. De forma genérica, cada dia de prova tem, em média,  80 a 100 quilómetros do mais puro mountain bike – sendo que a etapa mais curta foi a 1ª (um Prólogo de 19,5km) e a mais longa a 2ª (143 km com uma altimetria de 2654m).
Estes número já mostram que o Brasil Ride não parece fácil e não o viria a ser! Na página oficial do evento a certa altura encontramos o seguinte trecho: «O verdadeiro desafio desta prova não está só em vencer, mas no autoconhecimento, viver o esporte, superar os limites e chegar o mais próximo da natureza que se pode estar. (…) Na trilha, na mesa do jantar, no acampamento, a confraternização e troca de experiência entre os atletas será um dos pilares do evento.» E assim foi! A minha participação no Brasil Ride de 2019 ficou marcada, por uma lado, pelas boas sensações e por uma performance muito boa e, por outro lado, por um enorme crescimento enquanto dupla e ser humano.
Parti para o Brasil com uma “caixinha de surpresas” à minha espera – eu não conhecia a Karen Olímpio. Fomos falando ao longo do ano mas isso não é, de todo, suficiente para se conhecer uma pessoa, para se conhecer uma atleta no terreno. Fizemos bem o trabalho de casa: transparência nas conversas que tivemos durante os meses de preparação, partilha de traços de personalidade mais agudos, discussão sobre questões técnicas e práticas em prova – estou certa de que esta “base de conhecimento” nos fez avançar rápido na tabela classificativa.


Com ambição e respeito, atacamos o prólogo e logo deste resultou material para reflexão ao qual se acrescentou outro tanto depois dos momentos mais fortes e fracos da a 2ª etapa. Era agora ou nunca. Tínhamos na mão informação suficiente para nos colocarmos no pódio e assim foi. A Karen mostrou uma enorme vontade de aprender e rentabilizar as suas muitas competências e eu, confiando na nossa dupla, estava disposta a tudo para “fazer acontecer”. Na 3ª etapa estávamos a abrir champanhe e na etapa rainha estávamos no 2º lugar.
Não se esqueçam de que, para mim, o Brasil Ride nem parece nem é fácil. Mas o que eu não sabia, até à 4ª etapa, quando dominávamos a etapa e seguíamos na frente, impondo o ritmo, é que o Brasil Ride pode ser ainda mais difícil do que parece: a meio da etapa, devido a um arame que estava no circuito e que se agarrou ao quadro da bicicleta da Karen, ela sofreu uma queda aparatosa e aquele partiu. Eu nem queria acreditar! Não podia considerar um quadro com as duas escoras partidas e selim em cima da roda. Não queria acreditar que ficaríamos por ali na nossa participação no BR. Não sabia como mas haveria de resolver aquilo – lembrei-me de tudo o que já vi outros atletas fazerem quando peças se estragam, usei os paus à volta, os zips, a borracha,…

“Então e a Karen?”, perguntam vocês? Assim que a vi, vi que ela estava bem fisicamente (os hematomas e escoriações não a abrandariam) e, de forma muito experiente (madura ou automática, não sei como a definir) dirigi as ações para resolver a situação – não valia a pena mais drama, lamúria; o momento exigia toda aquela garra e determinação que tínhamos dado até aqui. Quando a adrenalina baixou, quando a razão baixou, percebemos que estava fora das nossas capacidades continuar em prova – uma vez mais, estávamos juntas, fortes, talentosas, profissionais e em grande sintonia. Se chorámos? Claro que chorámos! Como não o fazer! Chorámos o suficiente para lavar a “sujeira” que a vida tinha feito connosco! Chorámos o suficiente para aceitar que este acontecimento nos protegeria de algo mais perigoso que estaria para diante! Chorámos o suficiente para o choro ser só nosso e apenas partilharmos com os outros a experiência e a aprendizagem. E rimos! Rimos! Até a Karen teve o privilégio de ser a única que até hoje, em dez anos de ciclismo, foi levada por mim no quadro da minha bicicleta (o Vector Pro da minha Deed ainda não acredita no que lhe aconteceu).
– End of story?
– No way!
A darmo-nos tão bem a fazer aquilo de que mais gostamos, eu e Karen estávamos determinadas a ir para a pista mostrar ao que tínhamos ido. Com a possibilidade de largar para o XCO e para a última etapa, foi o staff da equipa da Karen que teve uma noite cheia de trabalho pois tiveram que montar-lhe uma bike a fim de podermos estar na linha de partida. Estávamos na linha de partida de plaquinha amarela, uma vez mais com objetivos bem definidos: no XCO cada atleta faz a sua corrida e, no final, conta a média do tempo da dupla, por isso, ambas fomos a fundo e, enquanto estive com a Karen, só sei que a mandei andar mais, ir à morte (pois eu faria o mesmo para nos colocarmos, como se o tempo contasse, no pódio); pumba! Como dupla fizemos o melhor tempo, mostrando, novamente, não só a nossa sintonia e equilíbrio, mas a nossa boa forma; quanto à última etapa, aqui foi a única vez que fui assertiva: “vamos ser as primeiras a cruzar a linha de chegada! Quero que, quando as camaras estiverem prontas para receberem as vencedoras da etapas, surpreendamos e conquistemos o momento com a nossa chegada!” – eu sabia que tinha a dupla certa com quem fazer isto acontecer: a Karen é feliz a competir, é feliz a crescer, é feliz a superar-se e juntas fomos muito felizes!
“Não ganharam a laranja?” Não, no plano real não ganhamos, mas, poupem-me a poesia, ganhamos muito muito mais do que muitos campeões.
Brasil Ride não parece nem é fácil: pode ser mais difícil ainda e muito mais bonito do que os olhos podem ver!

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