Estamos no mercado!

A todo o gás foram anunciados os pseudointeresses, os contactos nos bastidores e, ainda com a época a decorrer, foi ler manchetes a dar conta das mudanças de equipa, das trocas, das renúncias e dos “amigáveis desamigares”, etc. – qual novela, que o ciclismo também vive do popularucho e da bisbilhotice!

Agora que os ciclistas dão corda aos atacadores para umas caminhadas, corriditas e até umas subidas às escadarias das peregrinações, são anunciadas as renovações, as transferências, os contratos e até as saídas têm direito a posts no Facebook de profundo agradecimento e desejos de boas novas – qual milagre!

Tudo bem até aqui e pouco de novo (não fosse mesmo o mediatismo permitido pelos media da era digital em que cada comum tem o privilégio de ser agente de um jornalismo proletariazado)!

Tudo bem até aqui e pouco de novo com a nova temporada a resumir-se às atualizadas edições da Volta ao Algarve e da Grandíssima (vulgo “Volta a Portugal” para quem só dá pela existência de um ciclismo nacional porque a modalidade lhe passa à porta ou interrompe o trânsito à hora de almoço).

Eu tinha fé em mais! Talvez seja síndrome de uma eterna romântica, otimista por natureza, naïf por doença!

Eu ambicionava que o ciclismo dos ciclistas se tornasse agora mais delas também!

Eu confiava que se apanharia boleia do cacilheiro que levou a primeira edição da Volta a Portugal Feminina e, em paridade (ou igualdade, equidade, o que se lhe quiser chamar), se anunciasse com a Grandíssima deles a Magnífica delas.

Sim, a Magnífica porque colossal foi o que andamos até aqui chegar e não se pode esperar mais 100 anos (94, para ser exata)! Há poeiras que se levantaram que jamais deveriam pousar! Quando em movimento, é preciso alimentar a força e a velocidade sem que lhe falte intensidade! Livrai-nos do esquecimento que nos leva para a morte!

O sucesso da Primeira Volta a Portugal Feminina foi um prenúncio de mudança: no calendário, no estatuto das ciclistas, na sociedade, no respeito!

Ora, se não faltam títulos a dar conta do alvoroço no mercado masculino, no caso delas “mais do mesmo”! Ou seja, os clubes mantêm-se numa condição em que o que são capazes de propor às homónimas é uma licença, um ou dois equipamentos (calções e jersey), deslocações para as provas, quiçá alojamento (caso se justifique a distância de residência da atleta para o local de corrida) e… e é básica e geralmente isto!

Quando chegar a altura das provas, hão de esperar resultados. O público menos conhecedor da realidade destas estudantes, mães, trabalhadoras, achocalhará qualquer lugar que não seja pódio, franzirá a sobrancelha a um top 10, encolherá os ombros para o meio da tabela (se chegar a dar atenção a essas atletas). Uma vez mais, ouviremos falar da superioridade das estrangeiras e das atletas internacionalizadas – o resto será “carne para canhão” ou “atletas de final de linha”.

Não haverá oportunidade para uma nova Vanessa Fernandes que renasça das cinzas e nos venha chamar a atenção para como se pode morrer aos bocadinhos a dar tudo pelo que se ama, mas que surge no tempo e nas mãos erradas!

Entre a Grandíssima e a Pequeníssima, ambas “de” ciclistas, numa altura em que anda de badalo “a língua inclusiva”, a diferença é que uma é “dos” e a outra “das”.

Artigo originalmente publicado na edição de outubro em Tempo de Jogo

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