A Guerra em Tempo de Jogo

O Tempo de Jogo é o Tempo da Ética no Desporto e não pode ter intervalos nem descontos ou pedir compensações em Tempo de Guerra!

O Xadrez! O Xadrez é um daqueles jogos de tabuleiro que acompanha na nossa formação, a nossa presença e aquilo que nos há de seguir. Não é preciso jogá-lo! Nem é preciso dominá-lo! Aliás, basta sabermos que está lá, ali, acolá desde o tempo dos avós dos avós, na sala, numa gaveta atulhada de arestas da vida que passa a correr. Mas está! Só de saber de si entendemos a importância dos oito peões, assim como que serão os primeiros a ser sacrificados; que as parelhas de torres, cavalos e bispos surgem a ladear a rainha, bem colocada em conformidade com a tradição à esquerda do rei e, daí, compreendemos a premência desta figura!

Seguimos para qualquer modalidade desportiva com a dualidade subadjacente ao objetivo do jogo de xadrez: por um lado, deixar o rei adversário sem saída (xeque-mate) e terminar com o jogo; por outro, defender, tática e estrategicamente o nosso rei, enquanto as batalhas técnicas a preto e branco estão em operação.

Mas e quando a Guerra surge em Tempo de Jogo? O que é exequível fazer, obedecendo aos valores do desporto, quando a Guerra invade os tabuleiros? Haverá tempo de desconto para a Guerra quando os estádios, os pavilhões, os campos, as estradas foram tomados de assalto? Qual o tempo de compensação que os atletas Russos e Ucranianos receberão dos agentes desportivos do resto do mundo? E, sobretudo, como é que se pratica “a ética no desporto”, o “olimpismo”, o “fair play” e o “desporto limpo” quando há uma polarização de tomadas de decisão?

Em pleno séc. XXI e liderando aquelas que são as práticas modelares, exemplares, inspirando a humanidade para a superação, para a equidade em liberdade, não admira que as Uniões, Federações e Associações Desportivas demorassem a responder ao conflito; da mesma forma que não exclama que as primeiras orientações surgissem a reboque e mimetizando o que os Governos, os Empresários e Agentes influentes anunciavam. Por isso, antes de mais: banir! Banir! Banir! Atacar o rei! Não defendemos o nosso rei, mas antes mostramos a nossa intenção de colocar em xeque!
Estávamos a fazer um mau jogo! Aquelas não são as regras que pautam os nossos exercícios! Não é esta a estratégia do Desporto e muito menos do “Desporto Civilizado e Contemporâneo” – não digo “Ocidental” precisamente por não concordar com uma existência polarizada e por não alimentar “aforismos popularoides”! Muito aprendemos, “importámos” e continuamos a inspirarmo-nos pelas técnicas orientais dos samurais, por exemplo, tal qual as tecnicas de meditação e mindfulness tão em voga ultimamente nas prescrições de treino dos atletas.

Neste tabuleiro é preciso fazer cair peças, mas é também preciso cuidar das que caem! Depois das “sanções” venham as “receções”: estamos a acolher atletas, treinadores, dirigentes, equipas! Estamos a exercer os valores que defendemos e que são a nossa identidade! Acresce, com racionalidade, que o altruísmo nos motiva, nos move! Acresce que nos protegemos e que cada ser humano desportista que acolhemos é um pedaço de futuro melhor que se está a formar, aqui, entre nós e connosco!

Contudo, há que superar! Esse é, de facto, o real objetivo do atleta! Não nos basta fazer xeque-mate! Aquele que é “olímpico” busca a excelência, o sublime resultado. A fasquia está alta: seremos capazes de acolher aqueles cujo local de nascença dita a inimizade bélica? Estaremos preparados para não discriminar pelo país? Como é hoje a rotina de um atleta russo? Que ansiedades, frustrações, expectativas carrega nas horas de treino um atleta que nasceu no país do “odiado-autoproclamado-rei-Putin”? O que vamos dizer a um ginasta de quinze anos que passava as horas no Centro de Alto Rendimento repetindo exponencialmente os mesmos gestos e que agora vê o futuro cancelado e sem prazo de devolução? Temos um Complexo Desportivo Municipal à espera de basquetebolistas, maratonistas, ciclistas, futebolistas, bailarinos, jovens e crianças que são meramente peões desarmados caços nas fileiras e aprisionados nas colunas de um jogo para o qual não haviam recebido pré-convocatória?

O Tempo de Jogo é o Tempo da Ética no Desporto e não pode ter intervalos nem descontos ou pedir compensações em Tempo de Guerra!

Artigo originalmente escrito para a minha colaboração mensal com Tempo de Jogo relativa a março’22.

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