Faltam 239 para o réveillon

Chegaremos a tempo dum jantar com a nossa mãe ou já só para um abraço de boa noite que nos sacie a sede de colo? Eu não sei! Já não conto estes dias carregados de energia que deixei de presenciar, festejando sempre na distância. Sou anorética destas celebrações, bulímica de intenções!

Ainda há pouco escrevi “Antes que termine janeiro”. Janeiro terminou, fevereiro, março e abril. Hoje é o sexto dia de maio, o 126º do ano no calendário gregoriano e faltam 239 para o réveillon. Mas o que tem este domingo de especial?

Hoje muitos celebram «O Dia da Mãe», uma data comemorativa assinalada ao primeiro domingo de maio. Hoje, enquanto muitos celebram o dia com as suas mães, eu, a minha dupla, Pilar Nuñez, a minha equipa, um largo conjunto de atletas, completamos seis seguidos dias de competição. No nosso país à beira mar plantado, o Dia da Mãe já foi comemorado a 8 de dezembro, mas passou para o 1º domingo de maio em glória à Virgem Maria, mãe de Cristo. E nós, como homenagearemos as nossas mães? Buscaremos nelas a força para ganhar a etapa? Será essa a motivação para conquistar o mais rápido que os pulmões atinjam um lugar no pódio? A data honra todas as mães e serve para reforçar e demonstrar o amor dos filhos pelas suas madres – e eu nem sei se chegarei a tempo de, já no final dum dia desgastado, lhe dar um beijo e abraçar as horas que não passamos juntas… Porém, a tradição remonta às comemorações primaveris da Grécia Antiga, em tributo a Rhea, mulher de Cronos e mãe dos deuses; em Roma, as festas do Dia da Mãe eram dedicadas a Cybele, a mãe dos deuses romanos e as cerimónias em sua homenagem começaram por volta de 250 anos A.C. – mas, por estes dias, verão ou inverno, não há primavera e dos deuses já não se ouve falar desde Os Lusíadas. Por isso, os rituais são outros: uns levantam-se para o pequeno-almoço bem de madrugada a fim de terminá-lo 3 justas horas antes da partida e outros, a quem a ansiedade atraiçoa, nem pregam olho. É o sexto e último dia, a quinta etapa. O Dia da Mãe serve para nos açodar a todos e dar-nos uma boa razão para regressarmos ao lar céleres e vitoriosos, iluminando os rostos enfraquecidos de um dia (mais um dia) sem os filhos, que se fizeram corredores, no colo.

E não é que hoje é também «O Dia Internacional Sem Dieta»? Até vem mesmo a calhar: cai bem neste dia um farto almoço em família, sem pesos nem medidas, sem contar calorias, quebrando, por um dia, a dieta. Todavia, esta não é a minha realidade! Neste dia, lembre-se, eu, a minha dupla, a Casa Myzé Team, o Portugal Tour MTB vamos pesar o pequeno-almoço, medir os sais e contar barras e géis para não falhar nas calorias.

Chegaremos a tempo dum jantar com a nossa mãe ou já só para um abraço de boa noite que nos sacie a sede de colo? Eu não sei! Já não conto estes dias carregados de energia que deixei de presenciar, festejando sempre na distância. Sou anorética destas celebrações, bulímica de intenções!

No dia em que se pretende lembrar a aceitação do corpo tal como ele é e a sua diversidade, chamando a atenção para os perigos de seguir dietas rigorosas e um modelo de corpo perfeito imposto diariamente pela sociedade moderna, faço do corpo parte daquela engrenagem a que não pode falhar o combustível para a força de chegar à frente, o mais à frente! Há de ser perfeito assim: marcado pelo empenho de 6 dias de competição, 6 fartos dias de emulação. Neste dia em que se declara a libertação da dieta restritiva e da obsessão pela perfeição, assim como se honram as vítimas de transtornos alimentares e de discriminação pelo excesso de peso e se procura, ainda, promover a alimentação saudável e equilibrada em todos os tipos de corpos, fugindo às perigosas dietas comerciais, eu estou perfeitamente anorética daquela presença materna (que a minha mami não é adepta d’O Ciclismo nem se presta a estas movidas) e bulímica de “ganas” de fartar o orgulho de quem me carregou no ventre, e sigo, porque a genética assim o quis e porque me apraz, «a-minha-dieta-#glutenfree-#crueltyfree-#sugarfree-#lactosefree». Como Mary Evans, diretora do grupo britânico “Diet Breakers”, que, após sofrer de anorexia, começou a lutar contra a indústria das dietas e criou em 1992 o “International No Diet Day”, defendo a individualidade e as escolhas saudavelmente (in)formadas que fizeram com que a causa ganhasse apoio de grupos feministas e relevo em países como o Canadá, EUA, Austrália, Dinamarca e Índia, até se tornar numa data global.

Hoje, enquanto uns colocam um ponderado laço azul-claro na roupa para notar o dia, nós queremos colocar-nos de rosa-fluorescente. Que não nos falhem as contas, a Virgem do céu, o carinho da mãe nem os votos dos deuses a favor…

Artigo para o painel de domingo 6 de maio da Gazeta Vimaranense Duas Caras

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