A 5 dias da data de voo de regresso a Cabo Verde já a minha ansiedade me travava a respiração com um nó na garganta.
Alerta e consciente aos sinais, fui-me cuidando e tratando de fazer uma gradual e saudável despedida de todos os que me são tão essenciais – do meu Bruno mais do que qualquer outro, é verdade.
O Tarrafal é um ponto incontornável na passagem pela ilha de Santiago. É promovido pelo turismo como uma das praias mais deslumbrantes de Santiago, com areia branca e águas cristalinas, rodeada de coqueiros. Por isto, mas sobretudo pelo entusiasmo com que os próprios locais me recomendavam os destino, desde a hora que a Glenda me falou desta ida em bicicleta que vivi com imenso entusiasmo a expectativa de conhecer a vila (ainda mais podendo ser eu a conquistar o trajeto pela força do meu pedalar, com o tempo que as subidas levam para um apreciar da paisagem, da dureza do declive criado pela natureza composta de uma arqueologia e flora únicas).
Eu sou a soma de todos e vejo mais alto aos ombros de gigantes. Por isto, sou tão grata a este nobre grupo que com tanta camaradagem me acolhe.
Hoje foram os Weekenders – o nome por si só dispensaria mais comentários, mas eu não me quero limitar aos elogios. Os Weekenders são gente resolvida, emancipada, empoderada, de bem com a vida, com a simplicidade que só os intelectos complexamento literados possuem. Com eles tudo flui, tudo é tranquilo, pacífico – não há problemas que eles são gente que arquiteta soluções. São gente de grandes corações.
Desta forma, o caminho da Praia ao Tarrafal só poderia ser brilhante!
De resto, os treinos passados já me permitiam gerir os primeiros 20km, sabendo de antemão (porque, como vos disse, esta malta é verdadeiramente aberta e genuína) que iam apertar comigo nas subidas míticas, como o Jongoto, Assomada e Malagueta. E o caminho foi-se conquistando entre recuperações em grupo nos escassos km de aparente plano e as inclinações típicas de uma ilha – um verdadeiro XCO constante.
Até São Domingos eu reconheço a paisagem, pois já lá fomos e parte da rota é comum com o nosso circuito da circular e a estrada para a Praia Baixo. A partir de lá, havia feito até ao Parque Natural da Serra da Malagueta – e é a partir daí que a coisa fica mais bela!
Da janela de uma Hiace não se vive a experiência de atravessar a ilha da mesma forma. O que era bonito ficou ainda mais belo e o que já era belo ficou sublime.
Os Picos de Santiago são disso bom exemplo! Como é possível que a Natureza seja tamanha arquiteta? Tomado o alto, tive que parar para experimentar, na primeira pessoa, o vento na pele, a vista sobre o longínquo, o cheiro do verde, os tons desta paleta do interior de Santiago.
Quando cheguei à derradeira e temida subida para atravessar a Serra da Malagueta, confesso que já as horas, os KMS e a brincadeira dos QOMs me entorpeciam as pernas. O Júlio atacou logo no início – possante como é, já anteveêm que ganhou distância nos primeiros km; o jovem promissor Nilson, qual trepador, segui-lhe a roda e, com facilidade, iniciou a escalada. A mim sobrou-me, como é apanágio, a cabeça. Mantive-me numa posição com contacto visual e procurei ascender num ritmo constante. Lentamente fui progredindo e, tão encantada com os planaltos que se construíam à minha direita quão necessitada de algo que me motivasse e entretivesse, viria, entretanto, a ultrapassar os outros dois colegas. Segui absorvida pela imponência rochosa, pela grandiosidade dos vales, das montanhas que se somavam. Como era muito mais majestosa a Serra da Malagueta na bicicleta do que pela vidraça da carrinha!
Da Serra para o Oceano, os KMS foram maravilhosamente feitos a grande velocidade. Como eu gosto de velocidade!!!
Incrível ver do alto o plano da terra junto ao mar. Incrível saber que em aproximadamente 10km se deixou para trás o ar rarefeito da altitude para se estar no areal. Lindo! Adorei e guardo na minha memória todas aquelas fotografias que as lentes do meu olhar capturou.
Chegamos! Chegamos sempre juntos! Saímos juntos. Seguimos unidos no respeito por todos os ritmos e vontades. Chegamos sempre juntos.
Depois da foto da praxe, alívio e convívio! Entre umas krioulas e qualquer outro líquido que reponha sais, lá celebramos o feito.
Mais relaxados, seguimos o “Chefe-Capitão-Paulo Canuto” e metemos as pernas nas prometidas águas turquesa sob a promessa de que assim melhor recuperamos para amanhã (Weekenders que são Weekenders fazem a dobradinha de sábado e domingo 🤪😂).
E o que é que falta na checklist do ciclista? Falta o bom do repasto! E que repasto nos prepararam no restaurante Hola Orla! Que manjar! Bebidas sobre a mesa, da água ao bissape e sumo de calabaceira, passando pelas cervejas e pelo vinho, até aos refrigerantes para todos os gostos, arroz, feijoada, saladas, legumes cozidos (onde não faltavam as variadas batatas doces e abóboras da terra) – sim, também havia, obviamente, vários pratos carnívoros, mas vocês sabem que passo essa parte 😂😚) – pudim de leite, salada de fruta, cafés e abatanado! Tanta variedade com exímia qualidade! Foi ou não foi um manjar? Volto ao Tarrafal só pelo Hola Orla! Testado e recomendado! 🤤😋
Chega a hora de regressar e, como é imagem de marca desta organização, nada é deixado ao acaso! Daquilo que para mim está no topo da lista das prioridades é o cuidar bem da minha Bianchi. Assim, agrada-me ver que as bicicletas são devidamente acondicionadas com mantas de proteção no transporte.
E pronto… De pernas ao alto era só isto que tinha muita vontade de vos dizer: QUE DIA ESPETACULAR! Obrigada, malta! Muito muito obrigada! 🙏
E é muito isto: a 13 de outubro respirei um momento histórico da nação que é agora a minha casa 🏠. “Os Tubarões Azuis venceram o Essuatíni por 3-0 e asseguraram, de forma inédita, a qualificação para o Campeonato do Mundo de Futebol.”
21 dias para formar um hábito. Já me habituei ao modo “no stress” Cabo Verdiano mas ainda não interiorizei e ainda não sou capaz de me comportar de forma tão descontraída como o contexto pede!
Mas, enfim, sou eu a ser Ilda e eu a ser Europeia em África! 🫣